quarta-feira, 30 de junho de 2010

a tarde em que você viu a Pisadeira


Você sempre acreditou nisso de lendas. Sabe que não tem lá muito como ser verdade, mas no fundo, no fundo, você tem um fiapinho de esperança que pelo menos uma ou outra realmente possa existir.

Não sendo do tipo que tem medo, sequer ligou muito pra lenda da Pisadeira quando sua avó contou semana passada no sítio. Ficou curioso por não conhecer o mito mas, como todo mundo, não deu muito crédito praquilo. Mesmo gostando de lendas, essa era surreal demais para ter qualquer possibilidade de exitir. Preferia continuar pensando nos sacis da serra de Botucatu ou nas Sereias que podem haver nesse mundo cheio d' água que vivemos.

Sem isso na cabeça, você nem se ligou que dormiu de barriga pra cima depois do almoço - e que feijão tropeiro! - só se ligou mesmo quando viu que tava acordado e não conseguia se mexer. E nem sequer abrir os olhos.

Você só sentia aquele peso no seu peito, pressionando e a imobilidade do seu corpo. Você não conseguia mexer um músculo sequer. Não teve como não vir a sua cabeça a história que sua vó contou, da Pisadeira, que pisava no peito das pessoas que dormiam depois de comer.

Aquilo parecia mentira. Mas era exatamente o que estava acontecendo contigo naquele momento.

Sentindo um cheiro de frutas, não sabia dizer qual, você se esforçou pra conseguir ouvir uma gargalhada maquiavélica, dessas de filme mesmo. Já sabia que era ela, mas pensou que só podia estar sonhando.

Passado um tempo, pareceu ter acordado. Você não sabia mais se estivera dormindo ou acordado. Teria sido sonho? Ou aquilo tudo realmente acontecera? Você estava determinado a descobrir.

No dia seguinte você repetiu o processo- só trocou o feijão tropeiro por um caçule - deitou-se de barriga pra cima, como dizia sua vó, e adormeceu. Não demorou muito pra você sentir que não conseguia se mexer. O cheiro de frutas estava mais forte dessa vez. A gargalhada mais sútil, mais irônica. Parecia que ela estava brincando com você. Ela já sabia o que você queria. E talvez por isso ela tenha deixado você abrir seus olhos, num esforço quase sobrehumano.

E você viu. Viu a Pisadeira. Primeiro viu seus pés. Eram pés largos, mas limpos, com unhas pretas bem compridas, que mais pareciam esmaltados do que de enxofre. A pele era branca e branca. Suas formas eram bem mais femininas do que a bruxa que sua vó lhe contara. Ela estava abaixada em cima do seu peito, olhando pra ti. E quando você a encarou, praticamente esqueceu que apesar dela estar aparentemente nua, sua pele parecia ser feita de seda, que suas formas se mutavam suavemente. Quando encarou seus olhos completamente negros, você não se lembrou nem que estava dormindo, e que aquilo podia ser realmente um sonho. Quando viu a sua boca enorme, ela parecia ter 90 dentes caninos, mas mesmo assim, sorria com simpatia pra você.

E talvez por simpatia ela tenha deixado você falar.

- Você.... é a Pisadeira?
- ...
- ...
- Sim.
- ...
- ...
- ...
- e por q...

Ela pulou antes de você terminar a frase, gritando, esganiçada, assustada, você não se deu conta que enquanto falava com ela, foi abraçando-a, meio que instintivamente, e só depois você percebeu que ficou com um pedaço de sua pele de seda, que você agarrou sem perceber, ao senti-la pulando.

- ...
- ...
- ...o que foi?
- ...
- Por que você pulou?
- VOCÊ TAVA ME ABRAÇANDO!
- calma, calma...
- VOCÊ TÁ COM UM PEDAÇO DE MIM!
- Ei! Calma! Calma!
- CRRRRRRRRRRR

Ela saltou pra cima de você, novamente, mas você já podia se mexer e conseguiu cair da cama. A Pisadeira tava sobre a cama, te olhando no chão, seus olhos negros estavam vermelhos, e todos os seus 90 dentes estavam a mostra. E algo ainda mais estranho aconteceu. Você ouvia uma voz chamando seu nome fora do seu quarto. Alguém chegando perto. Você e a Pisadeira ficaram se encarando por uns poucos segundos, quando a porta se abriu . A Pisadeira surpreendida, saiu pela janela, como um gato assustado.

Depois disso, você se viu no chão, com aquele pedaço de seda branca, com cheiro de frutas. Não tava entendendo muito bem o que aconteceu. Demorou alguns dias pra você se convencer de que tudo aquilo não foi um sonho. Mesmo com o pedaço de seda ficando embaixo do seu travesseiro.

Foi só numa outra visita a sua Vó que as coisas começaram a fazer sentido. Ao contar-lhe toda a história, ela explicou que quando você fica com um pedaço de alguma coisa da Pisadeira, você tem o direito de pedir qualquer coisa pra ela.

E agora toda a noite você dorme e se lembra dela. Pensa se ela vai vir te visitar. Pensa em o quanto ela ficou assustada quando você a abraçou, e pensa no que falaria pra ela se ela aparecesse. Você explicaria que não fez por mal e que só gostaria de poder conversar um pouco mais com ela.

Mas o que você não consegue tirar da cabeça é o quanto isso tudo foi estranho e o quanto isso parece natural pra ti, agora.

E lá no fundo, no fundo, você pensa, e pensa só pra você, em como você pode ter se apaixonado desse jeito.

Você se lembra do olhar dela e fica arrepiado. Por alguns momentos lhe passa a ideia de que ela também esteja se sentindo da mesma forma que você. Mas logo você tira essa ideia da cabeça, lhe dizendo o quão absurdo ela é. Você só queria que ela voltasse mais uma vez.

E mesmo não querendo acreditar, você sabe que ela vai voltar

10 comentários:

Diego Belini disse...

Hauaheuha dahora, essa eu não conhecia... ficou dahora, você podia continuar essa historia num próximo capitulo... também não sabia o que era um caçule... vivendo e aprendendo

Quirino disse...

Explicando as tags, rolou uma parceria aí pra esse post! Desenho meu, e (ótimo) conto do André!

Liene Saddi disse...

E que parceria!!!
Os dois estão de parabéns!! =D
História super envolvente, e a imagem ilustrando muitíssimo bem a pisadeira e o clima da história!! Parabéns mesmo!! =)

Henrique Barone disse...

POXA! Antes de ler aqui vou um pau pro desenho antes! MTO BOM! Medo aqui. Vamos à leitura!

Henrique Barone disse...

Pronto! Voltei pra pagar pau pro texto agora...ehehheh...Mto bom! Bem legal mesmo! Gostei do primeiro co-trabalho da Soubre ae! Bem legal!

André Turtelli Poles disse...

Valeu aí, galera! =D

O desenho d Quirinão tá demais! =D
O estilo alto contraste aí caiu muito bem, e isso que foi a primeira vez que ele fez algo assim! =P

Rafito! disse...

Poxa rapaz, ótima história =D
E acho dois lances psicológicos destacados MUITO legais =D
1º) Aquele lance completamente absurdo que ele ouvira da avó se tornar algo natural depois. E o quão é estranho essas coisas que normalmente são estranhas, depois de conhecidas e convividas se tornam estranhamente naturais =D Eu fiquei pensando sobre isso porque eu acho que é o que aconteceria mesmo né? Numa invasão de ETs, num encontro com possíveis sacis de botucatu, com a pisadeira! Apesar de completamente estranhos agora, poderiam se tornar parte integrante da vida da gente como coisas naturais =D

2º) A facilidade do personagem se apaixonar apenas por se sentir dentro da vida da pisadeira =) Só um olhar do ser, e a observação de uma possível fragilidade da pisadeira, somado ao simples fato de o personagem ter sido um dos poucos (se não somente ele), com quem a pisadeira já deu-lhe o direito de falar, o fez se sentir especial de certa forma, e isso parece que o fez se apaixonar, unido à uma grande carência prévia (visto que ele já tava abraçando-a sem perceber) =D

Tá, tá, tô viajando demais, mas esses dois pontos me foram destacados =D

E digo que gostei muito do desenrolar da história, ficou muito bem contadinho! ;D
A parte mais tensa quando a pisadeira fica encarando-o no chão e tal deram toques de suspense muito bons no texto! =D

E sobre o desenho, ficou bem intenso! Tá retratando a pisadeira com toda sua beleza feminina, mas puxando bastante para uma atmosfera mais pesada! A forma como as sombras encombrem-na quase que totalmente (e principlamente o detalhe de meio rosto coberto pelas trevas) achei que foi um recurso crucial pra dar todo esse aspecto =D
O ambiente completamente escuro apenas com detalhe à janela, submetida à um vento ficou muito bom pra somar ao contexo todo =D

Gostei da interparticipação (não sei nem se essa palavra existe) de trabalhos :D

Clá disse...

texto e ilustra muito bons!
acho que essa parceria pode render coisas muito boas!!!
parabéns para a dupla!=)

dormindofalei... disse...

Ana
eu acho se ele fosse de verdade eu
taria com o estomago muito chato...
mas tambem achei o texto muito encrivel,mostra uma mensagen...

Frank Lucas disse...

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