domingo, 12 de abril de 2009

Um conto de réis

Araújo é um homem que não espera mais nada da vida. Já viveu muito e esperou muita coisa. Hoje em dia é dono duma padaria das mais simples, que mantém mais que por costume do que pra sobreviver. Só vende pão, porque “duma padaria só precisamos mesmo é do pão”. Com um humor sempre ruim, sua rabugice reina, não há simpatia que o deixe um cadinho se quer mais simpático. Os clientes compram lá por que é mais barato, mas ninguém sai muito feliz depois de ter que receber o troco de Seu Araújo. A maioria costuma levar as moedinhas contadas, só que, vira e mexe aparece um desavisado que entra lá com uma nota alta e saí cheio de pães, moedas e amargura.

Numa tarde meio chuvosa, meio ensolarada, no horário que não tem pão pra assar e nem pão assado, um garotinho de bermuda roxa adentra a Padaria do Seu Araújo. Com um olhar curioso examina as prateleiras vazias e as geladeiras desligadas que habitam o chão velho, porém impecável, da padaria. Ele andava cuidadoso, com o olhar atencioso, examinando e procurando, algo que não conseguia achar. A luz fraca e morna não ajudava muito a encontrar qualquer coisa naquelas prateleiras, “poderiam colocar alguns vaga-lumes aqui ou ali” pensava o garoto.

Araújo mostrava-se indiferente, tinha notado o garoto ali, mas se perguntassem diria que não viu ninguém. Não estava com o menor saco pra “brincar de conversinha” com menininhos de 7 anos, ainda mais com um pirralho enxerido de calças roxas. Quando percebeu que o garoto estava vindo até ele, virou-se de lado e fingiu contar o dinheiro que estava na gaveta.

Oi, senhor!

Sessenta, setenta, oitenta...

Oi , seeenhor!

Oitenta e cinco, um e dez, um e trinta e cinco...

Oooi, seeeenhoooor!

Um e vinte e cinco, um e cinqüenta e...

Senhor!

PORRA, GAROTO, NÃO TÁ VENDO QUE EU TÔ OCUPADO?

...

ME FEZ PERDER A CONTA! Cacete...

...

O QUE VOCÊ QUER?!

De-desculpa, senhor... e-eu eu só que-queri-a-a

PARA DE GAGUEJAR MOLEQUE! ASSIM NÃO ENTENDO! FALA IGUAL GENTE!

(Gulp)

...

Eu-eu só queria um sonho...

UM SONHO!? Aqui não tem sonhos... aqui só tem PÃO.

Não tem sonhos..?

Não. Quem precisa de sonhos. Eu só tenho o que precisa. E só precisamos mesmo é de pão.

...Sabe, é que meu avô me deu “um conto de réis”, e me disse que dava pra comprar muita coisa importante com esse dinheiro e...

UM CONTO DE RÉIS!?! AINDA VEM AQUI ME PREGAR UMA PEÇA DESSAS!? VEM COMPRAR COISA AQUI NA MINHA PADARIA COM ESSE DINHEIRO QUE NÃO VALE NEM PRA LIMPAR A BOSTA QUE VOCÊ CAGA!

...

VAI EMBORA DAQUI MOLEQUE! ANTES QUE EU ME SAÍA DESSE BANCO PRA TE DAR UMAS BOAS PALMADAS!

...

VAMOS!

O garoto enfim sai da padaria, meio cabisbaixo, meio indiferente, parecia mais triste pelo fato de não conseguir sonhos do que assustado com o vocabulário feio e agressivo de seu Araújo.

Seu Araújo voltou a sua contagem de dinheiro, de onde tinha parado, e só depois de uns 10 minutos lembrou que não estava contando coisa nenhuma, ele tinha começado isso tudo só pra evitar o moleque. Irritado com isso, resolveu fechar a padaria mais cedo. Naquele dia seu Araújo sentiu-se estranho. Estava muito irritado por perder seu tempo com aquele garoto e mais irritado ainda por ter se desconcentrado a ponto de perder 10 minutos contando dinheiro.

No dia seguinte, Araújo abriu a padaria cedo como de costume, colocou os pães para assar e ao voltar no balcão lá estava o garoto de ontem, olhando pra cima.

VOCÊ DENOVO?!

Bom dia! O senhor ainda está sem sonhos?!

Ô PIVETE! Eu já não te falei que aqui eu SÓ TENHO PÃO!

Já sim... mas pensei que talvez...

Não pensou nada... vai andan...

Antes mesmo de Araújo terminar a frase o garotinho já ia saindo da padaria, dando uma olhadinha pra trás e correndo logo em seguida.

MOLEQUE VOLTE AQUI! SEU LADRÃOZINHO! ORA!!!

Seu Araújo, bufando, tinha certeza que o garoto tinha roubado alguma coisa, por vingança de certo, por ele não ter sonhos. Foi então verificar as prateleiras, para só assim se lembrar que não havia mais nada lá... apenas pão. Sem sonhos. Apenas pão. Ficou estático por alguns instantes. Tempo o suficiente para não perceber o garoto atrás dele, com as mãos pra trás, olhando pra cima com um sorriso discreto, de quem aprontou.

ARRÁ! SE ARREPENDEU DE TER SURRUP... você não roubou nada... o que tá fazendo aqui?!

Vim te trazer um presente!

Presente?!

O senhor é muito bravo... não pode ser assim não seu Padeiro... Toma!

...

...

Um sonho?

O senhor não tem sonhos aí, por isso é tão nervoso. Sempre que tenho um sonho fico mais feliz, então resolvi te dar um hoje! Aí depois eu volto pra ver como o senhor vai estar, eu tenho certeza que vai ficar muito mais contente! Tchau!

...







Com um sorriso suave e discreto, seu Aráujo percebe que agora tinha algo pra esperar novamente.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

tema VII

Conto

s. m.
1. História fictícia.
2. Embuste; mentira, peta; treta. (Us. mais no pl.)
3. Número.
4. Dez vezes cem escudos.
5. Parte inferior da lança.
6. Ponteira dum bastão ou pau ferrado.
7. Artilh. Remate globular da peça.